Um texto de
Ronaldo Tedesco e Silvio Sinedino*
Prezados participantes da Petros,
1.
Em
complemento a análise da situação da Petros iniciada no texto anterior, que
abordou a situação conjuntural da economia mundial e a brasileira, segue uma
análise sobre a carteira de investimentos da Petros e a carteira de crédito
privado, em particular.
A
carteira de investimentos da Petros
2.
Elementos
adicionais deste processo, muito importantes e que têm impactos neste déficit
técnico acumulado são o portfólio de investimentos da Petros hoje, sua carteira
de crédito privado, os diversos investimentos problemáticos que temos
acompanhado e, infelizmente, também as denúncias do processo de investigação da
Operação Lava Jato, na Petrobrás, que se estendem à Petros.
3.
O
plano Petros BD já é considerado tecnicamente um plano maduro, visto que além
de ser um plano fechado para novos participantes, a maioria destes está na fase
assistida. Há uma tendência de uma necessidade cada vez maior de liquidez do
Plano. Obviamente isto não é uma situação imediata. O fluxo de caixa do plano
está adequado neste momento e deve permanecer assim pelos próximos 20 anos,
segundo as análises de ALM (casamento entre o ativo e o passivo) realizadas
pela Petros. Neste sentido, o próprio déficit existente hoje se coloca, na
verdade, para uma perspectiva de 30 anos. Em outras palavras, não haverá falta
de liquidez para o pagamento de benefícios neste período.
4.
A
questão do portfólio de investimentos da Petros é uma questão que os
participantes e assistidos da Petros têm enfrentado através das ações dos
conselheiros eleitos por indicação do CDPP – Comitê em Defesa dos Participantes
da Petros.
5.
A
maturidade do plano coloca uma necessidade de rever a estratégia de
investimentos da Petros. Importante notar que esta necessidade se impõe também
para um plano jovem como o plano Petros 2, pelos motivos contrários. Ou seja, a
adequação dos investimentos é uma necessidade permanente que a Petros precisa
enfrentar cotidianamente.
6.
Nós,
conselheiros eleitos, temos batalhado tanto no conselho deliberativo como no
conselho fiscal para que a Petros efetue esta adequação do portfólio de
investimentos de seus planos de benefício. É comum ouvirmos os jovens
funcionários da Petrobrás reclamando da carteira conservadora do plano Petros
2. Da mesma maneira, é preciso que os participantes do plano Petros BD tenham a
consciência de que uma carteira mais conservadora é mais adequada ao seu plano.
7.
Além
desta adequação, há a necessidade de uma revisão dos investimentos que a Petros
vem fazendo ao longo dos anos. No Relatório de Atividades de Dezembro de 2014,
temos as justificativas apresentadas pela Petros ao desempenho de nossa
carteira de ações em participações. Observem nas páginas 25 e 26 que os ativos
All América Latina ON e Carteira Ativa III (Vale) refletem o preço do minério
no médio e longo prazo e a crise
conjuntural. Braskem ON, Contax UNT, Litel ON e PN, Log-in ON, Marcopolo PN, Norte Energia ON, Petrobras ON e PN, Romi ON, Vanguarda ON, todas refletem o momento conjuntural, repercutindo bastante a
crise da Petrobrás e a baixa no mercado acionário. Como uma ou
outra variável reflete da mesma maneira o que expusemos anteriormente: a enorme
crise econômica tem efeitos importantes nos ativos da Petros, bem como dos
demais fundos de pensão - e comprometem decisivamente os seus resultados.
8.
Os
resultados dos investimentos da Petros estiveram, portanto, abaixo das
expectativas e não atingiram a meta atuarial do plano Petros BD, conforme
podemos verificar no quadro abaixo:
9.
Estes
investimentos podem ser melhor ser observados por segmento, conforme o quadro
abaixo:
10.
Outro
aspecto importante a ser observado são os títulos públicos marcados a mercado,
que sofrem variação com o mercado e são abalados mais fortemente quando o Governo
utiliza o expediente de controle inflacionário através do aumento da taxa SELIC.
A
carteira de crédito privado
11.
A
carteira de crédito privado representa cerca de 2% dos investimentos do plano,
que significam em torno de R$ 1,4 Bilhão. Quando falamos em Petros, os valores
são sempre bastante grandes em relação a outros fundos de pensão. É, portanto,
significativo que 90% desta carteira de crédito privado esteja provisionada
para perdas. De um total de R$ 801.959
milhões, temos em Dezembro de 2014 R$ 730.608 milhões provisionados.
12.
Este
fracasso na carteira de crédito privado chama a atenção não somente pelo
resultado negativo, mas pela insistência da Petros em realizar alguns tipos de
operações que o Conselho Fiscal da Entidade vem seguidamente alertando para o
alto risco, recomendando a adoção de garantias mais firmes, apontando para o
risco de contraparte, inclusive credores e gestores cujos cadastros junto a
Petros insistimos para que seja feito e atualizado permanentemente para que a
Entidade possa evitar riscos demasiados e desnecessários. Falamos em CCBs,
CCCBs, Debêntures conversíveis etc.
13.
Junto
a isto, temos os fundos de investimentos cujos gestores são terceirizados. A
apresentação da composição desta carteira ao Conselho Fiscal no mês de março de
2015 comprovou o que já esperávamos: a maioria destes ativos envolviam CCBs e
CCCBs, novamente.
14.
O
Conselho Fiscal tem sido insistente nesta orientação aos gestores da Petros,
sendo que enviamos diversas consultas e denúncias à Previc que tem sido,
portanto, informada destes desvios e não-conformidades.
15.
Esta
situação da carteira de crédito privado enseja mudanças importantes que
julgamos imprescindíveis de serem tomadas na Petros em relação à diretoria de
Investimentos. São decisões estratégicas que envolvem, em nossa opinião,
inclusive, a patrocinadora do plano, a Petrobrás.
16.
A
pedido dos Conselheiros Deliberativos eleitos por indicação do CDPP foi
realizada um auditoria independente dos 70 (setenta) ativos de títulos privados
com provisões de perdas. O objetivo é entender porque resultaram em perdas, que
garantias foram apresentadas e por último, mas não menos importante, quem
trouxe esses investimentos à Petros. Os resultados preliminares já apresentados
mostram vários problemas em relação a documentos legais, garantias
insuficientes e outros problemas que serão amplamente divulgados ao fim do
trabalho que possibilitará à Petros aperfeiçoar sua
governança nessa área.
17.
A
Petros hoje não possui mecanismos de controles internos suficientes e
eficientes para evitar estas perdas. No levantamento de necessidades de
controles internos da Entidade, tampouco os responsáveis do setor foram capazes
de apontar as ineficiências de controles a serem supridas. Os gestores de
investimentos da Petros ou não sabem dizer quais são os controles necessários
ou não querem ter estes controles.
18.
Um
dos elementos que nos preocupa é a rotatividade de funcionários na gerência de
investimentos. Pela nossa percepção, a Petros acaba sendo uma “escola” e, assim
que o profissional adquire uma expertise busca outros horizontes fora da
Entidade.
19.
Para
este problema, nossa opinião é que a patrocinadora Petrobrás deveria ceder
profissionais de investimentos para a Petros, mantendo estes profissionais em
sua folha de pagamento para que possa reter uma equipe com alguma possibilidade
de que os profissionais não saiam para o mercado.
20.
No
próximo texto, vamos abordar a questão das provisões matemáticas e as providências
que estamos tomando, os conselheiros eleitos da Petros sobre os diferentes
desafios colocados.
*
Ronaldo Tedesco é conselheiro fiscal da Petros e Silvio Sinedino é conselheiro
deliberativo da Petros, eleitos pelos trabalhadores para a gestão 2013/2017.
São também diretores da AEPET – Associação dos Engenheiros da Petrobrás. Ambos
são conselheiros certificados pelo ICSS – Instituto de Certificação dos
Profissionais de Seguridade Social.
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