Um artigo de Paulo Teixeira Brandão *
A mídia divulgou uma nova fase da Operação Lava
Jato, dessa vez, envolvendo o ativo da Petros Pituba, um prédio utilizado pela Petrobrás
em Salvador, na Bahia.
O episódio é exemplar para demonstrar os
limites das atividades de fiscalização dos fundos de pensão no Brasil.
Em 2011 tivemos denúncia anônima ao Conselho
Fiscal da Petros de que havia irregularidades no contrato da Petros com a
Petrobrás para a construção do prédio da Petrobrás em Pituba, Salvador, na
Bahia. O conselheiro fiscal indicado pela Petrobrás José Elias da Silva foi o
relator do item de pauta que permaneceu por mais de dois anos em análise e com
uma série de iniciativas do colegiado. As solicitações de informações à Petros
foram muitas para tentarmos entender os problemas que envolviam os contratos da
obra e seus desdobramentos na execução.
A manutenção do item de pauta por todo esse
tempo foi necessária. A partir de informações que conseguíamos com
participantes da Petros na Bahia e junto a própria Petrobrás pudemos rastrear in loco diversas não conformidades entre
o que havia sido contratado e o que de fato estava sendo realizado. E pudemos
também tomar importantes iniciativas para que as diversas situações verificadas
pudessem ser superadas para evitar prejuízo para os participantes e assistidos.
Apenas para exemplificar, a obra prevista tinha
sofrido diversas reavaliações e o orçamento inicial havia sido alterado
diversas vezes. Entretanto, boa parte do que tinha sido modificado no projeto
original não estava sendo remunerado à Petros, especificamente ao Plano Petros
do Sistema Petrobrás (PPSP) de onde os recursos financeiros estavam sendo
retirados para o investimento. Mesmo o local do canteiro de obras, que era o
estacionamento do prédio preexistente não estava sendo remunerado. Melhorias no
sistema de iluminação projetado inicialmente, no sistema de ar condicionado e
mesmo de cortinas automáticas que aproveitavam a iluminação do dia para
economia de energia, além de todo cabeamento para TI lançado não estavam sendo
remunerados também.
Com obstinação e diversas iniciativas junto à
Petros e à Petrobrás conseguimos num longo processo de análise e cobranças
junto à companhia a consolidação de mudanças contratuais importantes que
possibilitaram o atingimento de um contrato de longo prazo, adequado à meta
atuarial do plano de benefícios PPSP.
Além dessa análise demorada e das cobranças
realizadas, tivemos ainda as diversas iniciativas de denúncia. As principais
delas foram as demonstrações contábeis não aprovadas por 15 anos seguidos e que
naquela ocasião foram apresentadas para a Secretaria de Previdência
Complementar (SPC), antecessora da Superintendência Nacional de Previdência
Complementar (Previc). E também ao Ministério Público Federal.
Há quem diga que esse trabalho nunca foi
realizado. Há quem diga que há inércia no trabalho dos conselheiros eleitos
pelos participantes. Há quem diga que suas denúncias foram ignoradas. Há quem
ignore tudo o que foi feito nos últimos anos. E, pior, há quem só veja suas
próprias iniciativas e não veja as outras e importantes iniciativas realizadas.
O fato determinante nesse episódio é que o
contrato assinado ao fim e ao cabo pela Petros e a Petrobrás em relação ao
ativo Pituba, conquistou uma remuneração adequado à meta atuarial do PPSP. Há
que se questionar a questão do custo de oportunidade e a adequação do volume
financeiro investido, mas o resultado financeiro não foi o desastre que se
apresentou antes das iniciativas do Conselho Fiscal da Petros serem tomadas,
invertendo um claro prejuízo numa negociação que permitiu o atingimento da meta
atuarial do PPSP.
Esse é o limite da alçada do exercício do
Conselho Fiscal de um Fundo de Pensão. Buscar verificar as práticas exercidas
pela gestão da Fundação, procurar evitar que tais práticas sejam acobertadas e
se transformem em prejuízos aos participantes. Denunciar os gestores que
realizaram tais práticas aos órgãos públicos de fiscalização como a SPC, Previc
e MPF. Envolver as patrocinadoras na solução dos problemas encontrados.
Quanto à parte de responsabilização civil e
criminal, não há como o Conselho Fiscal extrapolar suas competências. Ele deve
encaminhar as denúncias. Mas há que se cobrar dos órgãos públicos que cumpram
seus papéis.
Nessa contenda, obviamente, nós, participantes
e assistidos da Petros temos sido sempre a parte mais fraca do sistema e a
corda arrebenta sempre do nosso lado, como agora no Plano de Equacionamento do
Déficit Técnico do PPSP (PED do PPSP).
Recentemente em um congresso nacional de fundos
de pensão, diante de 2.000 pessoas questionamos aos agentes públicos de
fiscalização: depois de 15 anos sem contas aprovadas pelo Conselho Fiscal e um
déficit técnico de 28 bilhões de reais, quem estava certo? Quem fazia as
denúncias e não foi ouvido? Ou quem as recebeu e nada fez?
A questão, aqui e agora, não é, como nunca foi,
quem estava ou está certo ou errado. Mas sim quem consegue, através dos
mecanismos disponíveis na sociedade brasileira, impor uma agenda para resolver
os problemas reais que se apresentam. E quem os coloca debaixo do tapete para
utilizar quando lhes convier.
* Paulo Teixeira Brandão é suplente do Conselho
Fiscal da Petros e diretor da APAPE e AEPET.
Sr. Paulo Teixeira Brandão
ResponderExcluirLi o seu artigo sobre o escândalo do prédio Pituba, no qual tenta justificar a validade do referido investimento sob o ponto de vista da remuneração financeira da obra pronta e as limitações do Conselheiro Fiscal. Acredito que tão importante ou até mais importante, é verificar se ocorreu superfaturamento durante a obra. É o que se pode imaginar ao ler a noticia de que o valor final da obra saltou da casa dos “320 milhões para 1,3 bilhão” de reais. O senhor poderia dizer se, na fase da obra, houve denúncia de superfaturamento? E se houve, quais foram objetivamente as atitudes tomadas pelos Conselheiros eleitos na defesa dos interesses do PPSP, no sentido de estancar essa prática criminosa?
Oscar Gabriel Filho (aposentado PPSP, 02/12/2018)
Oscar, diz esta pergunta diretamente ao conselheiro em questão. A resposta dele é que o investimento atende aos requisitos de retorno. Mas, não sabe dizer o que será quando a Petrobras quiser fazer o distrato do aluguel. Quem irá pagar esta conta? Mais um déficit para o PPSP.
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