Um
artigo de Ronaldo Tedesco e Silvio Sinedino*
Uma questão
primordial nos chamou a atenção desde que começamos a participar como
representantes eleitos na Petros, há mais de seis anos. Os nossos investimentos
estavam de pé trocado.
Um plano
jovem como o Plano Petros 2 (PP-2) tinha uma carteira de investimentos ancorada
na renda fixa e títulos públicos. Já o maduro Plano Petros do Sistema Petrobrás
(PPSP) sempre esteve muito exposto à renda variável, com diversos ativos em
participações, que vulnerabilizam excessivamente nosso plano.
O conceito de
maturidade reflete o fluxo de pagamento de benefícios do plano e o número de
assistidos pelo plano em relação ao número de ativos e a receita de contribuições.
Na medida em que o plano envelhece, os dois primeiros crescem em relação aos
dois últimos. É tempo, portanto, de uma menor exposição a riscos de toda a
carteira de investimentos.
Nossas
insistentes ponderações sobre o assunto e nossas iniciativas institucionais nos
conselhos nunca convenceram as seguidas gestões da Petros. Nem sob a
presidência de Wagner Pinheiro, ou Luís Carlos Afonso, ou Carlos Costa. Nem sob
a batuta dos presidentes do Conselho Deliberativo Wilson Santarosa ou Diego
Hernandes. Todos fizeram ouvidos de mercador.
As aplicações
em “Participações” em empresas nos pareciam mais como oportunidades para
nomeação de conselheiros administrativos e fiscais do que fontes de
rentabilidade para os Planos. A atuação dos conselheiros nomeados pela Petros
pouco tem servido para uma influência decisiva na gestão destes ativos. Serve
como um suplemento de renda para alguns gestores e gerentes. Além de outras
nomeações de conselheiros questionadas por todos nós, como a indicação de José
Gabrielle para o conselho de Itausa e a recente nomeação de Aldemir Bendine
como conselheiro “observador” em BR Foods, função esta que desconhecemos na
concepção de governança corporativa e que estamos investigando como aconteceu
através do conselho fiscal.
Os investimentos
em “Crédito Privado” foram dos mais criticados pelas enormes provisões à perda
que geraram. Por iniciativa dos conselheiros eleitos que mantêm uma atuação
independente do governo, da direção da Petros e da Petrobrás foi aprovada uma
Auditoria nos 70 (setenta) investimentos que tiveram provisões à perda. Foi
contratada uma empresa de Auditoria cujo Relatório Final está em análise nos
conselhos deliberativo (CD) e fiscal (CF) da Entidade. Mesmo sem concluir essa
análise já foi aprovado pelo CD que os investimentos em “Crédito Privado” terão
que apresentar rating mínimo “AA-“
emitido por agência internacional.
Novas diretrizes – Finalmente, o
conselho deliberativo da Petros, em sua reunião de janeiro último, aprovou a
Política de Investimentos da Petros 2016-2020. Nela constam agradáveis mudanças
aos participantes e assistidos. Pressionada por um déficit técnico que pode
chegar a R$ 20 Bilhões, enfim a atual diretoria da Petros se rendeu aos nossos
argumentos. A política proposta avança significativamente para diversas das
observações que vimos fazendo. Embora tardias, estas mudanças são muito
bem-vindas por que apontam para a solução dos problemas que vimos sinalizando
desde sempre.
Antes de
apresentar aquelas que consideramos as principais mudanças é importante
ressaltar o profissionalismo com que os atuais conselheiros indicados, tanto
deliberativos quanto fiscais, têm atuado na gestão da Petros neste último
período. Nessa questão mesmo da Política de Investimentos as preocupações que
manifestaram no conselho deliberativo eram praticamente as mesmas que as
nossas. A Petrobrás parece que percebeu que somos todos responsáveis pela nossa
Fundação e seus Planos administrados. E, neste momento, verificamos uma
independência e autonomia que até agora era rara na atuação de seus
representantes nos conselhos. Com nobres exceções, é claro.
As principais
mudanças na política de investimentos são, em nossa opinião, as seguintes:
1-
Investimentos Estruturados - Os
investimentos de “Curva J” (grandes investimentos no início, com a
rentabilidade só ocorrendo após decorrido boa parte do prazo, ou às vezes ao
final, do investimento), cujo melhor exemplo são os FIPs (“Fundos de
Investimentos em Participações”) não vêm apresentando bons rendimentos e terão
sua participação neste momento mantida, sem novos investimentos até o seu
encerramento. Não investiremos mais em FIPs, assim como também não investiremos
em Fundos de Investimentos Imobiliários.
2-
Investimentos no Exterior - Outra decisão
importante é que não faremos investimentos no exterior. Entendemos que é de
grande importância para o país que os fundos de pensão colaborem com o
desenvolvimento nacional através de seus maciços investimentos em
infraestrutura que, em geral, são investimentos de longo prazo, compatíveis com
as necessidades dos Planos. Porém, esta função importante que é derivada do
capital acumulado por nossos planos de benefícios não pode prejudicar o
objetivo estratégico destes planos, que é pagar benefícios. Os seguidos
governos transferem o risco destes investimentos para os fundos de pensão.
Quando não dão certo, o mico fica com os fundos. Exemplo: Sete Brasil.
3-
Investimentos em Participações - Ficou
definida a intenção de nos desfazer dos investimentos em “Participações” que
não vêm ao longo do tempo apresentando a rentabilidade exigida, ou que já
atingiram a rentabilidade esperada.
4- Títulos
Públicos – Com esta mudança acima,
reduzindo a nossa carteira de participações, a orientação é realizar a
aplicação desses recursos em NTNs de vencimentos adequados às nossas
necessidades, e tentando “marcação na curva” para evitar o efeito “variável” em
renda fixa. Essa decisão vem no sentido de mudar o perfil de investimento do
Plano para o de mais maduro. Mas abrangerá também os planos mais jovens como o
PP-2, com um perfil diferenciado para estes papéis em cada plano.
5- As Margens
da Política de Investimentos - Uma crítica
antiga que apresentamos às Políticas de Investimento era a sua “frouxidão”,
definindo que determinado tipo de investimento poderia ter, por exemplo, de 30
a 100%. Que Política é essa? Se for 30% está bom, mas se for 100% também está
bom? Além de uma faixa de percentual também haverá um alvo de alocação, dando
direcionamento à Política de Investimentos.
6-
Desinvestimentos - Foi decidido que haverá uma
Política de Desinvestimentos clara e objetiva que será apresentada ao Conselho
Deliberativo.
Estas são, em
nossa opinião, as principais decisões, que resumimos, mas que podem ser
integralmente avaliadas por todos acessando o portal da Petros, área do
participante e baixando a política aprovada. Há muito mais para ser visto, dê
uma conferida lá.
O Déficit
técnico e as saídas para a Petros - Temos
acompanhado as preocupações de todos sobre o momento delicado que a Petros
atravessa. A Petros deverá apresentar nas próximas semanas os resultados
contábeis referentes ao exercício 2015. A partir daí, teremos que discutir o
equacionamento do PPSP, que inclui dívidas das Patrocinadoras para com os
planos, como já está sendo feito em relação ao Plano Petros Ultrafértil, cujo
déficit técnico já está para ser equacionado.
Diversos
questionamentos têm sido feitos em função de nossos investimentos em ativos
como por exemplo a Invepar, concessionária de serviços públicos conquistados em
Leilões de Concessão (uma espécie de privatização com prazo renovável).
Esta empresa
tinha uma estratégia definida. O plano era participar de concessões que
pudessem valorizar sua capitalização quando do seu IPO (lançamento inicial de
ações no mercado). Ocorre que a conjuntura econômica adversa impediu o IPO
neste momento. Essa falta da capitalização esperada se somou com uma extrema
alavancagem (endividamento) e trouxe sérios problemas financeiros à empresa.
Em nossa
opinião, pode-se questionar o momento que a empresa vive. Pode-se mesmo
questionar se o planejamento estratégico que foi aprovado estava correto. Daí a
dizer que o negócio é ruim e que a Petros deve se desfazer dele é uma grande
diferença.
Se há quem
perca nas privatizações/concessões é a população que pagou com seus impostos a
construção daquele bem que passa a ser explorado pelo adquirente. O raciocínio
de se “livrar” deste ativo fica claramente questionado quando vemos a situação
das negociações envolvendo um dos sócios – a OAS – que está oferecendo sua
parte para a Brookfields. Esta empresa, que queria a princípio comprar a parte
da OAS, segundo boatos do mercado, quer agora comprar 51% da Invepar, reduzindo
com isto a participação dos fundos de pensão Petros/Funcef/Previ. Se fosse um
mau negócio, estes empresários estariam arriscando seu dinheiro?
As
negociações seguem e estão em aberto. Nossa opinião é que a Petros não pode ser
ainda mais exposta aos riscos do mercado. Portanto, não em função das
possibilidades da Invepar, mas dado a maturidade dos nossos planos, há que se
ponderar estes elementos que citamos.
Sete Brasil -
A proposta original da empresa Sete Brasil estava contaminada pela
descoberta do pré-sal. No pós-sal, a Petrobrás demorou 21 anos com mais de 470
poços em produção para atingir a marca de 500 mil barris/dia. No pré-sal, esta
marca foi atingida em 8 anos com 47 poços em produção, sendo que no ano
seguinte, já ultrapassou 1 milhão de barris.
Neste
contexto, a ideia de que a Petrobrás iria precisar de muitas sondas para a
exploração do Pré-Sal onde é operadora única não parecia errada. A proposta
incluía desenvolver uma indústria naval e criar empregos e gerar renda aqui no
Brasil. Consultem os analistas da mídia e das principais agências de análise de
investimentos da época. Quais os que se opuseram? Quantos levantaram a
possibilidade de uma crise no setor em 2015? Nenhum.
Outro aspecto
foi o superdimensionamento ou megalomania que apontou a possibilidade de nos
transformarmos em exportadores de petróleo, o que sempre combatemos. E a
questão da corrupção e utilização da Sete Brasil para fins escusos, que está
sendo investigada.
Itausa – Em relação a Itausa, sempre houve diversos questionamentos.
Especificamente, tivemos ao longo destes debates um posicionamento claro em
dois aspectos que são: investimento em bancos (que podemos considerar como
“agiotas” legalizados) e o fato de terem ainda sido compradas ações no mercado
para completar 15% para ter direito a assento no Conselho de Administração, o
que de fato não agregou nenhum valor à Petros. A partir daí, analisar como um
negócio que teria sido levianamente aprovado com má-fé pelos conselheiros
eleitos é um posicionamento com o qual obviamente não concordamos. A auditoria
que a Previc fez nesta operação autuou os diretores da época apenas em um único
aspecto: a falta de autorização da Petrobrás para a troca dos títulos públicos.
Itausa não
rentabiliza hoje como Petrobrás e Vale não rentabilizam. A Previ, fundo de
pensão do pessoal do Banco do Brasil, também investe nestes ativos. Qual a
solução que devemos dar sobre estes ativos que estão causando sérios déficit
técnicos tanto para a Previ como para a Petros? Vender tudo - Vale, Petrobrás e
Itausa - com certeza não está no horizonte de uma solução correta. As soluções,
repetimos sempre, não são fáceis. Apontar fórmulas mágicas seria
irresponsabilidade.
Qual é,
portanto, a solução milagrosa para a saída deste déficit técnico da Petros? Nós
mesmos respondemos: não existe. É preciso calma, tranquilidade e um
posicionamento sólido em defesa dos interesses dos donos da Petros, que somos
nós, participantes e assistidos da Entidade. A aprovação da nova política de
investimentos da Petros, neste aspecto, parece que foi um primeiro e importante
passo nesta direção.
Cobrar as Dívidas - Com esta
nova diretriz, a atual diretoria executiva da Petros aponta para o início de um
caminho mais seguro para o PPSP. No entanto, ainda precisará de um esforço
muito maior do que este para construir uma solução de equilíbrio para o nosso
plano de benefícios. A cobrança das dívidas da patrocinadora Petrobrás para com
o plano é fundamental nesta empreitada, por que responde a uma questão
estrutural do plano, que não pode ser enfrentada com soluções mágicas como a
separação de massas defendida pelo representante da FUP para deleite da
patrocinadora. Sem isso, mesmo com os caminhos apontados neste momento, não
temos dúvida de que estaremos somente observando mais do mesmo.
* Ronaldo
Tedesco e Silvio Sinedino são conselheiros eleitos da Petros e diretores da
Associação dos Engenheiros da Petrobrás
Sou aposentada da Vale Fertilizantes, (UF), recebi uma carta que a Vale pretende retirar o patrocínio da Petros, no item Défice técnico, não entendi muito bem, quem está devendo para quem? Como aconteceu isso, se pagamos na ativa e continuamos pagando como aposentados, dependendo do salário de cada um. Peço por gentileza esclarecimento mais preciso, estou completamente desorientada, angustiada, tenho 72 anos, eu e acredito que todos estão nessa situação. Agradeço as informações possíveis sobre o assunto. Helena Nogueira. 15-02-2016
ResponderExcluirPrezada companheira Helena Nogueira, Desculpe a demora em responder sua mensagem, antes de tudo. Ontem mesmo estivemos presentes em reunião com o presidente da Petros que está buscando solução para o problema através de contato direto com o presidente da Vale e do corpo técnico da companhia. A ASTAUL, associação de aposentados e pensionista da Ultrafértil, em Santos, São Paulo, está empenhada em acompanhar a solução para o problema do déficit técnico do plano. Em breve, a diretoria da Astaul publicará os desdobramentos da reunião de ontem. Qualquer dúvida, entre em contato com Hortênsia, pelo telefone (13) 99794-8329 ou 3235-3600. Forte abraço e conte conosco. Ronaldo Tedesco - Presidente do Conselho Fiscal da Petros, eleito pelos participantes
ExcluirEm tempo: Leia o artigo que publicamos hoje no nosso blog que aborda a situação do Plano Petros Ultrafértil. Abraços.
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