domingo, 14 de fevereiro de 2016

A Política de Investimentos da Petros 2016-2020



     
Um artigo de Ronaldo Tedesco e Silvio Sinedino*

      Uma questão primordial nos chamou a atenção desde que começamos a participar como representantes eleitos na Petros, há mais de seis anos. Os nossos investimentos estavam de pé trocado.
      Um plano jovem como o Plano Petros 2 (PP-2) tinha uma carteira de investimentos ancorada na renda fixa e títulos públicos. Já o maduro Plano Petros do Sistema Petrobrás (PPSP) sempre esteve muito exposto à renda variável, com diversos ativos em participações, que vulnerabilizam excessivamente nosso plano.
      O conceito de maturidade reflete o fluxo de pagamento de benefícios do plano e o número de assistidos pelo plano em relação ao número de ativos e a receita de contribuições. Na medida em que o plano envelhece, os dois primeiros crescem em relação aos dois últimos. É tempo, portanto, de uma menor exposição a riscos de toda a carteira de investimentos.
      Nossas insistentes ponderações sobre o assunto e nossas iniciativas institucionais nos conselhos nunca convenceram as seguidas gestões da Petros. Nem sob a presidência de Wagner Pinheiro, ou Luís Carlos Afonso, ou Carlos Costa. Nem sob a batuta dos presidentes do Conselho Deliberativo Wilson Santarosa ou Diego Hernandes. Todos fizeram ouvidos de mercador.
      As aplicações em “Participações” em empresas nos pareciam mais como oportunidades para nomeação de conselheiros administrativos e fiscais do que fontes de rentabilidade para os Planos. A atuação dos conselheiros nomeados pela Petros pouco tem servido para uma influência decisiva na gestão destes ativos. Serve como um suplemento de renda para alguns gestores e gerentes. Além de outras nomeações de conselheiros questionadas por todos nós, como a indicação de José Gabrielle para o conselho de Itausa e a recente nomeação de Aldemir Bendine como conselheiro “observador” em BR Foods, função esta que desconhecemos na concepção de governança corporativa e que estamos investigando como aconteceu através do conselho fiscal.
      Os investimentos em “Crédito Privado” foram dos mais criticados pelas enormes provisões à perda que geraram. Por iniciativa dos conselheiros eleitos que mantêm uma atuação independente do governo, da direção da Petros e da Petrobrás foi aprovada uma Auditoria nos 70 (setenta) investimentos que tiveram provisões à perda. Foi contratada uma empresa de Auditoria cujo Relatório Final está em análise nos conselhos deliberativo (CD) e fiscal (CF) da Entidade. Mesmo sem concluir essa análise já foi aprovado pelo CD que os investimentos em “Crédito Privado” terão que apresentar rating mínimo “AA-“ emitido por agência internacional.

Novas diretrizes – Finalmente, o conselho deliberativo da Petros, em sua reunião de janeiro último, aprovou a Política de Investimentos da Petros 2016-2020. Nela constam agradáveis mudanças aos participantes e assistidos. Pressionada por um déficit técnico que pode chegar a R$ 20 Bilhões, enfim a atual diretoria da Petros se rendeu aos nossos argumentos. A política proposta avança significativamente para diversas das observações que vimos fazendo. Embora tardias, estas mudanças são muito bem-vindas por que apontam para a solução dos problemas que vimos sinalizando desde sempre.
      Antes de apresentar aquelas que consideramos as principais mudanças é importante ressaltar o profissionalismo com que os atuais conselheiros indicados, tanto deliberativos quanto fiscais, têm atuado na gestão da Petros neste último período. Nessa questão mesmo da Política de Investimentos as preocupações que manifestaram no conselho deliberativo eram praticamente as mesmas que as nossas. A Petrobrás parece que percebeu que somos todos responsáveis pela nossa Fundação e seus Planos administrados. E, neste momento, verificamos uma independência e autonomia que até agora era rara na atuação de seus representantes nos conselhos. Com nobres exceções, é claro.
      As principais mudanças na política de investimentos são, em nossa opinião, as seguintes:

1- Investimentos Estruturados - Os investimentos de “Curva J” (grandes investimentos no início, com a rentabilidade só ocorrendo após decorrido boa parte do prazo, ou às vezes ao final, do investimento), cujo melhor exemplo são os FIPs (“Fundos de Investimentos em Participações”) não vêm apresentando bons rendimentos e terão sua participação neste momento mantida, sem novos investimentos até o seu encerramento. Não investiremos mais em FIPs, assim como também não investiremos em Fundos de Investimentos Imobiliários.

2- Investimentos no Exterior - Outra decisão importante é que não faremos investimentos no exterior. Entendemos que é de grande importância para o país que os fundos de pensão colaborem com o desenvolvimento nacional através de seus maciços investimentos em infraestrutura que, em geral, são investimentos de longo prazo, compatíveis com as necessidades dos Planos. Porém, esta função importante que é derivada do capital acumulado por nossos planos de benefícios não pode prejudicar o objetivo estratégico destes planos, que é pagar benefícios. Os seguidos governos transferem o risco destes investimentos para os fundos de pensão. Quando não dão certo, o mico fica com os fundos. Exemplo: Sete Brasil.

3- Investimentos em Participações - Ficou definida a intenção de nos desfazer dos investimentos em “Participações” que não vêm ao longo do tempo apresentando a rentabilidade exigida, ou que já atingiram a rentabilidade esperada.

4- Títulos Públicos – Com esta mudança acima, reduzindo a nossa carteira de participações, a orientação é realizar a aplicação desses recursos em NTNs de vencimentos adequados às nossas necessidades, e tentando “marcação na curva” para evitar o efeito “variável” em renda fixa. Essa decisão vem no sentido de mudar o perfil de investimento do Plano para o de mais maduro. Mas abrangerá também os planos mais jovens como o PP-2, com um perfil diferenciado para estes papéis em cada plano.

5- As Margens da Política de Investimentos - Uma crítica antiga que apresentamos às Políticas de Investimento era a sua “frouxidão”, definindo que determinado tipo de investimento poderia ter, por exemplo, de 30 a 100%. Que Política é essa? Se for 30% está bom, mas se for 100% também está bom? Além de uma faixa de percentual também haverá um alvo de alocação, dando direcionamento à Política de Investimentos.

6- Desinvestimentos - Foi decidido que haverá uma Política de Desinvestimentos clara e objetiva que será apresentada ao Conselho Deliberativo.

Estas são, em nossa opinião, as principais decisões, que resumimos, mas que podem ser integralmente avaliadas por todos acessando o portal da Petros, área do participante e baixando a política aprovada. Há muito mais para ser visto, dê uma conferida lá.

O Déficit técnico e as saídas para a Petros - Temos acompanhado as preocupações de todos sobre o momento delicado que a Petros atravessa. A Petros deverá apresentar nas próximas semanas os resultados contábeis referentes ao exercício 2015. A partir daí, teremos que discutir o equacionamento do PPSP, que inclui dívidas das Patrocinadoras para com os planos, como já está sendo feito em relação ao Plano Petros Ultrafértil, cujo déficit técnico já está para ser equacionado.
      Diversos questionamentos têm sido feitos em função de nossos investimentos em ativos como por exemplo a Invepar, concessionária de serviços públicos conquistados em Leilões de Concessão (uma espécie de privatização com prazo renovável).
      Esta empresa tinha uma estratégia definida. O plano era participar de concessões que pudessem valorizar sua capitalização quando do seu IPO (lançamento inicial de ações no mercado). Ocorre que a conjuntura econômica adversa impediu o IPO neste momento. Essa falta da capitalização esperada se somou com uma extrema alavancagem (endividamento) e trouxe sérios problemas financeiros à empresa.
      Em nossa opinião, pode-se questionar o momento que a empresa vive. Pode-se mesmo questionar se o planejamento estratégico que foi aprovado estava correto. Daí a dizer que o negócio é ruim e que a Petros deve se desfazer dele é uma grande diferença.
      Se há quem perca nas privatizações/concessões é a população que pagou com seus impostos a construção daquele bem que passa a ser explorado pelo adquirente. O raciocínio de se “livrar” deste ativo fica claramente questionado quando vemos a situação das negociações envolvendo um dos sócios – a OAS – que está oferecendo sua parte para a Brookfields. Esta empresa, que queria a princípio comprar a parte da OAS, segundo boatos do mercado, quer agora comprar 51% da Invepar, reduzindo com isto a participação dos fundos de pensão Petros/Funcef/Previ. Se fosse um mau negócio, estes empresários estariam arriscando seu dinheiro?
      As negociações seguem e estão em aberto. Nossa opinião é que a Petros não pode ser ainda mais exposta aos riscos do mercado. Portanto, não em função das possibilidades da Invepar, mas dado a maturidade dos nossos planos, há que se ponderar estes elementos que citamos.

Sete Brasil - A proposta original da empresa Sete Brasil estava contaminada pela descoberta do pré-sal. No pós-sal, a Petrobrás demorou 21 anos com mais de 470 poços em produção para atingir a marca de 500 mil barris/dia. No pré-sal, esta marca foi atingida em 8 anos com 47 poços em produção, sendo que no ano seguinte, já ultrapassou 1 milhão de barris.
      Neste contexto, a ideia de que a Petrobrás iria precisar de muitas sondas para a exploração do Pré-Sal onde é operadora única não parecia errada. A proposta incluía desenvolver uma indústria naval e criar empregos e gerar renda aqui no Brasil. Consultem os analistas da mídia e das principais agências de análise de investimentos da época. Quais os que se opuseram? Quantos levantaram a possibilidade de uma crise no setor em 2015? Nenhum.
      Outro aspecto foi o superdimensionamento ou megalomania que apontou a possibilidade de nos transformarmos em exportadores de petróleo, o que sempre combatemos. E a questão da corrupção e utilização da Sete Brasil para fins escusos, que está sendo investigada.

Itausa – Em relação a Itausa, sempre houve diversos questionamentos. Especificamente, tivemos ao longo destes debates um posicionamento claro em dois aspectos que são: investimento em bancos (que podemos considerar como “agiotas” legalizados) e o fato de terem ainda sido compradas ações no mercado para completar 15% para ter direito a assento no Conselho de Administração, o que de fato não agregou nenhum valor à Petros. A partir daí, analisar como um negócio que teria sido levianamente aprovado com má-fé pelos conselheiros eleitos é um posicionamento com o qual obviamente não concordamos. A auditoria que a Previc fez nesta operação autuou os diretores da época apenas em um único aspecto: a falta de autorização da Petrobrás para a troca dos títulos públicos.
      Itausa não rentabiliza hoje como Petrobrás e Vale não rentabilizam. A Previ, fundo de pensão do pessoal do Banco do Brasil, também investe nestes ativos. Qual a solução que devemos dar sobre estes ativos que estão causando sérios déficit técnicos tanto para a Previ como para a Petros? Vender tudo - Vale, Petrobrás e Itausa - com certeza não está no horizonte de uma solução correta. As soluções, repetimos sempre, não são fáceis. Apontar fórmulas mágicas seria irresponsabilidade.
      Qual é, portanto, a solução milagrosa para a saída deste déficit técnico da Petros? Nós mesmos respondemos: não existe. É preciso calma, tranquilidade e um posicionamento sólido em defesa dos interesses dos donos da Petros, que somos nós, participantes e assistidos da Entidade. A aprovação da nova política de investimentos da Petros, neste aspecto, parece que foi um primeiro e importante passo nesta direção.

Cobrar as Dívidas - Com esta nova diretriz, a atual diretoria executiva da Petros aponta para o início de um caminho mais seguro para o PPSP. No entanto, ainda precisará de um esforço muito maior do que este para construir uma solução de equilíbrio para o nosso plano de benefícios. A cobrança das dívidas da patrocinadora Petrobrás para com o plano é fundamental nesta empreitada, por que responde a uma questão estrutural do plano, que não pode ser enfrentada com soluções mágicas como a separação de massas defendida pelo representante da FUP para deleite da patrocinadora. Sem isso, mesmo com os caminhos apontados neste momento, não temos dúvida de que estaremos somente observando mais do mesmo.

* Ronaldo Tedesco e Silvio Sinedino são conselheiros eleitos da Petros e diretores da Associação dos Engenheiros da Petrobrás

3 comentários:

  1. Sou aposentada da Vale Fertilizantes, (UF), recebi uma carta que a Vale pretende retirar o patrocínio da Petros, no item Défice técnico, não entendi muito bem, quem está devendo para quem? Como aconteceu isso, se pagamos na ativa e continuamos pagando como aposentados, dependendo do salário de cada um. Peço por gentileza esclarecimento mais preciso, estou completamente desorientada, angustiada, tenho 72 anos, eu e acredito que todos estão nessa situação. Agradeço as informações possíveis sobre o assunto. Helena Nogueira. 15-02-2016

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezada companheira Helena Nogueira, Desculpe a demora em responder sua mensagem, antes de tudo. Ontem mesmo estivemos presentes em reunião com o presidente da Petros que está buscando solução para o problema através de contato direto com o presidente da Vale e do corpo técnico da companhia. A ASTAUL, associação de aposentados e pensionista da Ultrafértil, em Santos, São Paulo, está empenhada em acompanhar a solução para o problema do déficit técnico do plano. Em breve, a diretoria da Astaul publicará os desdobramentos da reunião de ontem. Qualquer dúvida, entre em contato com Hortênsia, pelo telefone (13) 99794-8329 ou 3235-3600. Forte abraço e conte conosco. Ronaldo Tedesco - Presidente do Conselho Fiscal da Petros, eleito pelos participantes

      Excluir
    2. Em tempo: Leia o artigo que publicamos hoje no nosso blog que aborda a situação do Plano Petros Ultrafértil. Abraços.

      Excluir