Um
artigo de Ronaldo Tedesco*
O
jornal Folha de São Paulo (FSP) de 05/01/2018 publicou matéria cujo título parece
buscar confundir os leitores: “Acordo da Petrobras beneficia mais de 1 milhão
de aposentados”. O subtítulo tenta explicar a confusão que o título instalou: “Fundos
de pensão nos EUA e no Reino Unido estão entre os investidores que vão receber
parte dos US$ 3 bilhões previstos.
Mas
a notícia está por trás dos títulos e subtítulos da FSP: a subserviência da Petrobrás
aos investidores estrangeiros e a gestão da companhia que está completamente voltada
para drenar os recursos da nossa empresa para interesses externos.
Desde
que a companhia colocou suas ações para negócio na bolsa de Nova York, o Brasil
entregou sua soberania e a Petrobrás sua principal finalidade. A Petrobrás foi
criada para servir aos brasileiros e agora está servindo aos estrangeiros. Se
submete de todas as formas possíveis aos ditames de capitalistas estrangeiros em
detrimento dos objetivos para os quais foi criada. Abrimos um parêntesis, por
que essa submissão se dá nos impairment,
no plano de desinvestimentos, no fechamento de unidades fabris, na demissão de
funcionários contratados, na perda de direitos dos trabalhadores, na política
de preços a níveis internacionais, na venda da NTS, da BR, na política de pagar
impostos duvidosos, que são questionados pelo seu próprio corpo técnico etc. A
atual gestão da Petrobrás está voltada para atender outros interesses que não
os do povo brasileiro.
O
acordo com os investidores estrangeiros, que soma U$ 3 bilhões (quase R$ 10
bilhões) é somente um aspecto da caridade com o dinheiro alheio que o atual
Presidente Pedro Parente e sua diretoria vem fazendo. Ainda há as ameaças da
SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) e o procedimento criminal na justiça
americana. Além de ações similares no Brasil, que perseguem o que acionistas
americanos e ingleses já conquistaram.
O
que chama a atenção na matéria da FSP é que parece que os aposentados
beneficiados são brasileiros, o que está longe da verdade. Os aposentados brasileiros
não serão beneficiados por esse acordo. E os aposentados petroleiros, nem de
longe o serão, tampouco.
Ao
contrário. Aposentados e pensionistas petroleiros, assim como os petroleiros da
ativa, que ajudaram e ainda ajudam a construir a grandeza da Petrobrás para
todos os brasileiros têm sido tratados com verdadeiro desprezo pela atual
gestão da companhia. O fundo de pensão dos petroleiros, a Petros, que sofre
como a própria companhia, dos males de todos os anos em que tem estado submetido
a interesses político-partidários, amarga hoje um déficit técnico em seu
principal plano de previdência complementar, da ordem de R$ 28 bilhões, podendo
ultrapassar os R$ 30 bilhões no fechamento de 2017 a ser divulgado em breve.
Diferente do que demonstra aos capitalistas estrangeiros, a Petrobrás não demonstra qualquer estima por seus trabalhadores e ex-trabalhadores. O déficit de R$ 30 bilhões será dividido meio a meio,
ignorando solenemente as dívidas e compromissos históricos assumidos com os
petroleiros. Ignorando também os desmandos a que a Petros esteve submetida, com
os olhos da própria Petrobrás, dos órgãos de fiscalização como SEST, PREVIC,
MPF etc., bem fechados e mesmo coniventes. A Petrobrás quer toda a gestão da
Petros para si, mas os resultados negativos dessa gestão ela vai dividir meio a
meio com os trabalhadores. Essa é a proposta de equacionamento do Plano Petros
do Sistema Petrobrás que está para ser implantada em breve.
Há
14 anos o Conselho Fiscal da Petros vem recomendando a rejeição das contas da
Fundação. A Petrobrás e os órgãos de fiscalização nada falaram sobre isso,
ignorando solenemente nossos avisos. Nos últimos quatro anos, os conselheiros
fiscais indicados pela Petrobrás tiveram a dignidade e a integridade de recomendar,
também eles, a rejeição dessas contas. Tudo tem sido fundamentado tecnicamente
e encaminhado aos órgãos de fiscalização, sem que tenha havido uma resposta
adequada aos problemas apontados.
Todos
os diretores da Petros, sem exceção, foram e são indicados pela Petrobrás, e se
recusaram a cobrar as dívidas que as patrocinadoras tem com o Plano de
Previdência dos petroleiros. As dívidas da Petrobrás, ignoradas antes como
agora, devem remontar um valor próximo aos $ 3 bilhões que o acordo com os
acionistas estrangeiros. Mas sequer são mensuradas, que dirá cobradas pela
Petros.
Há
problemas de todos os tipos provocados tanto pela gestão equivocada dos
recursos financeiros como também pela gestão equivocada do passivo atuarial, a
não cobrança das dívidas previdenciárias e até mesmo judiciais que as
patrocinadoras têm mantido junto ao fundo de pensão.
A
própria Petrobrás reconheceu tacitamente esses equívocos profundos que
ocorreram, quando nomeou para membros do Conselho Deliberativo três diretores da
companhia, Hugo Repsold, Jorge Celestino e Roberto Moro. À frente do Conselho
da Petros eles puderam verificar o nível de governança da Fundação. E as atitudes
mantidas por eles ao longo dos meses que estiveram no Conselho (e da atual
gestão da Petros) sempre foram no sentido de procurar atender a maioria dos
apontamentos realizados pelo Conselho Fiscal e pela empresa de auditoria
independente das demonstrações contábeis.
Dizemos
a maioria por que, a grande exceção continua sendo a mensuração e eventual
cobrança das dívidas da Petrobrás para com o nosso fundo de pensão. A nova
composição do Conselho Deliberativo da Petros e a atual Diretoria da Fundação ainda
não tomaram qualquer atitude definitiva nesse sentido.
Por
isso, mesmo, é contraditório e trágico que a Petrobrás reconheça que deve a
seus investidores estrangeiros e não tenha a dignidade sequer de mensurar as
possíveis dívidas que mantém com os seus funcionários e ex-funcionários em seu
fundo de pensão para evitar um equacionamento tão cruel como o que está sendo
proposto.
* Ronaldo
Tedesco é Conselheiro Deliberativo da Petros

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