Um artigo de Ronaldo Tedesco e Silvio Sinedino*
Ao
longo dos últimos meses, participantes e assistidos da Petros têm sido
bombardeados com inúmeras informações, algumas verdadeiras e outras não.
Esse
processo se intensifica na medida em que o principal plano de previdência
administrado pela Fundação, o Plano Petros do Sistema Petrobrás (PPSP)
apresentou um déficit técnico da ordem de R$ 26 bilhões.
Some-se
a isso, que por si já é preocupante, dois elementos conjunturais: a denúncias
de investimentos fraudulentos envolvendo o patrimônio de participantes e
assistidos da Petros e as eleições aos conselhos deliberativo e fiscal da
Fundação. Pronto. Temos uma mistura explosiva e um ambiente propício para
aventureiros e salvadores da pátria vociferarem contra tudo e contra todos.
Dados falsos sobre o PP-2
Já
no debate entre candidatos, a “conta de padeiro” se apresentou. A questão se
tratava em relação ao Plano Petros 2 (PP-2), plano sucessor do PPSP, e sua
rentabilidade.
Conforme,
já naquele debate, explicamos, a
rentabilidade do PP-2 é abaixo do que poderíamos ter, caso a gestão
ativa dos investimentos da Petros fosse eficaz. Mas a rentabilidade do PP-2 é superior à da poupança,
conforme a própria diretoria da Petros já divulgou em seu portal: “Na comparação
com a poupança, por exemplo, o PP-2 levou grande vantagem nos últimos 10 anos.
Desde que foi criado, em julho de 2007 até abril deste ano, o Plano Petros-2
acumulou rentabilidade de 160,14%, considerando apenas a contribuição do
Participante. No mesmo período, a poupança registrou rentabilidade de
98,53%, segundo dados do Banco Central”. Podemos observar que “contas de
padeiro” não servem para análises econômicas e financeiras, e muito menos para dirigir um Fundo de
Pensão. Servem para tentar criar fatos políticos e, talvez, angariar
alguns votos dos eleitores incautos e irritados.
Da
mesma forma, a gestão da Petros resolveu instituir uma “meta atuarial” para o
PP-2, para ter um parâmetro de avaliação do plano. Assim, “superávit” ou
“déficit” no caso do PP-2 são elementos de análise importantes para entender a
rentabilidade desse plano. E que “meta atuarial” seria essa? Foi “adotada” a
meta atuarial do PPSP para facilitar essa análise.
Os
problemas da Petros, e olhe que não são poucos, não vão se resolver com frases
de efeitos, como se vê. Somente com estudo e atitude firmes baseadas na boa
técnica e numa gestão ativa e transparente aos participantes e assistidos poderemos
dar um norte para a solução dos graves problemas que envolvem a Fundação.
As mentiras sobre o Déficit Técnico
Entre
esses problemas, o mais grave talvez seja a questão do déficit técnico do PPSP.
A origem múltipla desse déficit técnico incluiu elementos estruturais e
conjunturais, entre os quais listamos:
Baixa
rentabilidade dos ativos nos três últimos anos, provocada por queda no valor
das ações, investimentos que não deram o retorno
esperado, como Belo Monte, Itausa, Lupatech, Sete Brasil, além de dezenas de
outros investimentos envolvidos em denúncias de má gestão, os quais têm sido denunciados pelos
conselheiros eleitos que mantêm
uma postura independente dos governos e dos partidos políticos. E também
pelo Conselho Fiscal da Petros de forma unânime, nesses últimos quatro anos.
Houve
um crescimento acima do esperado do passivo atuarial (que são os compromissos concedidos
e a conceder do nosso Plano), que envolve uma maior longevidade dos
participantes e a adoção da família real para cálculo dos compromissos do PPSP.
Os conselheiros eleitos ainda vão querer da Petros providências com relação aos
gestores pela adoção tardia da família real,
ainda não explicada.
Além
disso, o passivo atuarial foi impactado
também pela má gestão da Petros, obrigando à retirada do teto de 90% para o
benefício inicial (que foi ilegalmente implantado e mantido por seguidas
diretorias da Fundação), pela não cobrança pela Petros à Petrobrás do
regresso judicial e dos gastos com escritórios jurídicos que prestam serviços à
Fundação. Pela informação,
falsa, por parte da Petrobrás e da BR Distribuidora à Petros das
premissas relativas ao aumento real dos salários da ativa, que dá origem à
cobrança do FAT/FC por parte da Fundação às patrocinadoras. E também pela não mensuração dos
impactos relativos às mudanças das políticas de recursos humanos da Petrobrás
(PCAC, Níveis, PL-DL 1971/1984, etc.) e pelos impactos dos PIDVs no fluxo de
caixa da Fundação.
Estas mudanças da política de RH se somam à
gestão equivocada do passivo atuarial que explicam a origem de um contencioso judicial do PPSP da ordem
de R$ 5,8 bilhões. Sem contar os impactos atuariais dessas contingências que
ainda estão por ser calculados, e que podem elevar o déficit técnico atual de
R$ 26 bilhões.
A Cobrança das Dívidas
Há nesse momento uma luta grandiosa em curso
pela responsabilidade das patrocinadoras em relação ao déficit técnico. Essa
luta se traduz também na disputa judicial que estamos fazendo para a cobrança
das dívidas das patrocinadoras para com o nosso plano.
Centralmente,
nossa disputa com a Petrobrás e a BR Distribuidora nesse momento é em relação
ao custeio do PPSP. Há uma falsa concepção, que infelizmente é defendida pela
Federação Única dos Petroleiros (FUP) e seus representante no Conselho
Deliberativo da Petros, de que “para os
planos de estatais e empresas públicas essa nova forma de custeio é a paridade”.
O
plano de custeio não poderia ser modificado pela Emenda Constitucional 20, nem
pela legislação complementar (LC 108 e 109/2001). Sem uma Constituinte originária, que teria esse poder, o
plano de custeio somente pode ser modificado com a alteração dos
regulamentos dos planos de benefício. Tampouco a suposta “exigência da paridade contributiva” é real. A
legislação ordena que as contribuições normais das patrocinadoras não
podem ser superiores as contribuições dos participantes e assistidos. No máximo
igual. Mas se refere somente às contribuições
normais. E por quê? Porque existem as contribuições extraordinárias, que,
como previsto na legislação, não têm esse limitador.
Portanto,
esse ponto de vista é inteiramente falso e somente visa livrar as
patrocinadoras de suas responsabilidades. É lamentável que os representantes da FUP tenham
abandonado essa nossa luta. O parecer
jurídico que a Petros incluiu no processo, e que serviu de base para a cobrança
do regresso judicial às patrocinadoras, não deixa margem de dúvida em relação
ao que estamos falando. E o complemento de parecer, solicitado pelos
conselheiros indicados pela Petrobrás nesse mesmo processo, é ainda mais
esclarecedor ao apontar que
estamos no caminho certo. Somente os companheiros da FUP ainda têm resistência
a realizar essa cobrança.
Ações em curso
Existem
ações de cobrança dessas dívidas. E quais são elas: contribuições sobre a RMNR
de Agosto de 2007 a Setembro de 2011 (em que o Conselho Deliberativo da Petros
já se manifestou e existe contrato de dívida assinado com a Petrobrás), o
impacto do PCAC, os gastos com ações judiciais e recursos procrastinatórios, Pagamento
do compromisso dos Pré-70 (Valor de face R$ 1,8bi X Valor contábil R$ 8 bi), FAT/FC Pós-2006, Grupo
78/79, Acordo de Níveis e a própria Ação Civil Pública na 18ª Vara Civil do Rio
de Janeiro que existe desde 2001.
Há
ainda diversas iniciativas das entidades sindicais e associativas ligadas à
Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) e à Federação Nacional das Associações
de Aposentados, Pensionistas e Anistiados do Sistema Petrobrás e Petros
(FENASPE).
Qual vai ser o final dessa luta nós não
sabemos. Sabemos é que a Petrobrás será cobrada pela Petros em relação à RMNR
(R$ 168 milhões) e ao regresso judicial (em torno de R$ 4 bilhões), pois essas
foram duas iniciativas dos conselheiros eleitos e do Conselho Fiscal da Petros
que obtiveram sucesso até agora. Mas ainda falta muito mais.
Tivemos
a decisão da justiça sobre o acordo de leniência da JBS, que deverá reverter R$ 2 bilhões aos
cofres da Petros nos próximos 25 anos, apesar de não estar claro ainda se esse
valor inclui a venda da nossa parte na Eldorado Brasil Celulose através do FIP
Florestal, o que reduziria essa indenização pelo valor da nossa participação no
FIP.
Nossa
expectativa é que possam ocorrer outros aportes em função das dezenas de
denúncias hoje em fase de investigação pelos órgãos de fiscalização e pela
própria Petros.
Responsabilidade dos gestores
Por
último, mas não menos importante, a responsabilidade dos gestores que deixaram
que a Petros chegasse ao atual estágio deve ser cobrada. A cada investimento
que comprovamos essa responsabilidade, o Conselho Fiscal recomenda a entrada de
ações reparatórias. Em relação ao passivo atuarial, os conselheiros eleitos
agirão da mesma forma, na medida em que essas responsabilidades frente aos problemas do passivo atuarial e
das dívidas não cobradas forem caracterizadas.
Não pode ser esquecida a responsabilidade das
seguidas Diretorias Executivas sobre a transferência de recursos dos Fundos
Administrativos do PPSP e do Petros-2 para os Planos administrativamente
deficitários, o que já foi considerado “inadequado” pela PREVIC.
Em síntese, há muito sendo feito e muito
ainda por fazer. Lamentamos imensamente que não temos tido sucesso maior em
nosso chamado à unidade de todas as entidades e grupamentos em defesa dos
participantes e assistidos. Alguns resistem a trabalhar de forma unitária, e
fazem ataques aos que lutam. Outros insistem em lutar ao lado das patrocinadoras e contra nossos
interesses.
A situação do Plano PPSP é complexa, como
mostrado acima. Para chegarmos a bom termo com a minimização da participação
dos Participantes e Assistidos no equacionamento do déficit técnico haverá
muita luta.
Isso exige, mais do que nunca, a União de
todos nós, únicos donos da Petros, na defesa dos interesses comuns de
Participantes e Assistidos.
Como exemplo, a FNP e a FENASPE, que congregam
a maioria absoluta dos participantes e assistidos da Petros têm sido
incansáveis no apoio às propostas e iniciativas dos conselheiros eleitos. A
história está sendo escrita agora. E vai cobrar de cada um de nós o preço por
nossa postura nesse momento difícil.
*
Ronaldo Tedesco e Silvio Sinedino são conselheiros eleitos pelos participantes
e assistidos que mantém a independência frente aos governos, partidos políticos
e à diretoria da Petrobrás e da Petros



